A criação do herói - parte I

Por MQZ

Como todos sabem (ou deveriam saber) as hqs são um gênero literário. Assim como nos contos, romances, crônicas e fábulas, o que é buscado através da arte é a boa forma e, consequentemente, o prazer.

A boa forma (um conceito da Gestalt) é a união de várias partes formando um todo coerente. Ou seja: ao aplicarmos bem vários elementos, podemos chegar a uma obra agradável e bem feita.

Como qualquer forma de arte, os quadrinhos têm elementos que são, de certa forma, fundamentais e que se não forem bem trabalhados e estruturados, vão sair esquisitos.

Aqui e agora vamos trabalhar um ilustre componente: o herói.

Na Grécia antiga

No Ocidente, as mais antigas e importantes manifestações literárias estão na Grécia. Por séculos suas obras serviram de modelo para livros, peças teatrais, cinema etc. Lá é a raiz da literatura moderna.

A grosso modo, podemos dividir a literatura grega em dois gêneros: narrativo e dramático. O primeiro costumava ser cantado em versos por um "rapsodo" (um poeta) e geralmente este contava uma história. O segundo gênero era voltado à peças teatrais. A história era interpretada por atores e certas ações eram apresentadas em sumários. O gênero dramático era dividido pela comédia e a tragédia (explicarei seus conceitos mais adiante).

O que consagrou o gênero narrativo foram as "epopéias". Grandiosas histórias sobre heróis e seus feitos. As mais conhecidas são a Ilíada (sobre a guerra de Tróia) e a Odisséia (sobre a tortuosa jornada de Ulisses, herói de ambas as obras) escritas por Homero em 80 a.C. Nas epopéias nasceram os heróis.

Fábrica de heróis

Durante o passar dos séculos o herói foi melhorado, suprimido e até abolido das obras literárias: é possível encontrar traços e sombras dos mesmos em alguns protagonistas, mas estes não são heróis.

O herói foi revivido pelos quadrinhos modernos e assume tantas faces nas páginas coloridas (ou não) que seria quase impossível enumerá-las: mas ele está lá, representando os valores de um grupo de pessoas, é por ele que torcemos, vibramos, rimos e choramos. É no herói que o leitor se espelha, por que herói espelha o leitor: é quem somos, quem queríamos ser, um amigo tão íntimo que as vezes sabemos o que ele pensa e até prevemos suas ações. Senhoras e senhores...

O herói!

Quem é o herói? Segundo alguns especialistas o herói seria "a representação encarnada dos valores de um povo". O herói reúne o que há de melhor num grupo de pessoas: ele é forte, rápido, inteligente, sortudo... uma coisa ou outra, ou tudo de uma vez! Mas a verdade é: o herói está acima dos mortais e abaixo apenas das divindades. Na literatura grega, a maioria dos heróis são semi-deuses, como Hércules, ou protegido dos deuses como Ulisses (Atena), Perseu (Atena) e Heitor (Apolo). Todos eles têm um algo mais que os tornam inatingíveis e incomparáveis.

O algo mais

Nesse ponto vou enumerar alguns processos nos quais passam todos os heróis. Possivelmente haverão excessões, talvez não sejam "heróis de verdade", mas sim alguma outra coisa (ou não, sei lá!)

A centelha divina: "Centelha divina" é aquilo que torna o herói diferente dos meros mortais: é o seu melhor, o seu poder, seu mojo. A "centelha" varia desde sangue divino até super-força/ agilidade/ inteligência e sorte. Neste ponto é que se explica por que ele é tão bom assim.

Note que geralmente a "centelha" é algo associado ao que há de mais misterioso e poderoso numa determinada época. Exemplo: na Grécia antiga, a "centelha" vinha dos deuses, na Idade Média, a centelha vinha da fé, no Renascimento vinha da ciência, na época Pós-Guerra vinha da energia nuclear e do espaço (Homem-Aranha? Super-Homem?) e na Guerra Fria temos mais Et's e Genética. É interessante notar que na era contemporânea temos como centelha as artes marciais, forças sobrenaturais, treinamento militar e cibernética. Recomenda-se que, ao criar o seu herói, o criador observe o mundo ao seu redor e tente ver de onde vem a centelha no momento. Claro que o cara também tem que contextualizar: não tem como fazer um herói cibernético na Antiguidade (ou tem!?)

A tragédia: Como foi dito antes, na Grécia Antiga o gênero dramático era dividido em tragédia e comédia. Nas peças de tragédia era sempre mostrado uma situação boa/normal para uma pior; enquanto a comédia era o inverso: uma situação ruim se torna boa. Esse processo de transição se chama "peripécia" (de peripeteia, do grego).

Elucidado estes aspectos, vamos ao herói. Geralmente sua vida está boa até que acontece algo muito ruim e ele decide "se tornar um herói". Temos como exemplo: a morte do Tio Ben (Homem-Aranha), os pais de Bruce Wayne (Batman). exílio (Ulisses) ou explosões de planetas, segregações raciais etc.

É importante observar alguns aspectos relevantes a respeito da Tragédia:

- O Herói pode ter recebido, ou não, sua centelha antes do processo;

- A Tragédia pode nem sempre ser obra do destino: as vezes ela acontece por negligência ou culpa do Herói, que sofre, por sua vez, as consequencias;

- A Tragédia pode se apresentar como uma ameaça a ser enfrentada, ao invés de uma força já imposta.

O dever

A força mais poderosa que move o herói. Ao se defrontar a Tragédia, o Herói se ergue, avalia seus valores, e toma uma providência: cumprir o dever.

Os deveres são o que há de mais forte e imutável no Herói: "não existe herói sem dever". Todos os seus atos são para satisfazer esta força e Deus ajude quem estiver no seu caminho.

O dever pode ser um compromisso com o mundo, os fracos, um país, uma pessoa, um ideal, não importa o que seja. Heróis trocam de roupa, esposas, identidades, corpos... Mas não de dever.

A missão

A missão de um herói é a forma que ele cumpre seu dever. É a atitude que ele toma todos os dias, é a sua luta contra o crime, invasores espaciais, vilões, monstros, persas... Enfim, toda vez que algo ou alguém ameaçar seu dever ele estará lá.

Como diria o Super-Homem: "a batalha sem fim..."

Bom, fim da primeira parte! Espero que tenham gostado. Nos próximos artigos falarei mais de heróis, até que possamos encontrar o que há de comum em todos eles! Até!

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